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3I/ATLAS - A nave cometa

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Nos últimos setenta ciclos, a estrela Thaar, mãe do sistema sha’luuniano, entrara num colapso interno. Bolhas de instabilidade nuclear, dilatação irregular do núcleo, prenúncio de morte estelar. A previsão era clara: supernova inevitável. E quando Thaar explodisse, todos os mundos ao redor desapareceriam. ________Um conto de ficção científica de Antenor Emerich A nave Cometa surgiu silenciosa na borda externa do Sistema Solar, envolta em um disfarce de poeira e gelo artificial que a fazia parecer um cometa legítimo aos telescópios humanos. Era assim que a tripulação de Sha’Luun preferia operar: invisível, discreta e totalmente indetectável para a população da Terra. Ninguém poderia saber que aquele cometa brilhante no céu não era uma rocha errante — mas uma máquina alienígena sofisticada. Seu objetivo era simples e desesperado: estudar as explosões de plasma do nosso Sol para salvar a estrela deles, prestes a explodir. A única esperança estava aqui — no nosso Sol, que atravessava uma f...

Fábula da Garça velha

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Crônica de Antenor Emerich Quando estava na terceira série, das séries iniciais, lia o livro de Português inteiro. Chamaram minha atenção as estórias das Reinações de Narizinho e, em especial, as fábulas. Uma delas me marcou profundamente: a de uma garça já velha e cansada, que pescava em um lago antigo, já um tanto “tordado” — sujo, lamacento — dificultando sua vida, pois com a visão turva não conseguia mais enxergar os peixes direito. Um dia, a velha garça, astuta e experiente, passou a falar de um lago distante, maravilhoso, onde a água era límpida, insípida e inodora. A notícia correu entre os habitantes do lago, e logo uma discussão se formou. A questão mais complicada e intransponível era: como a população poderia migrar para outro lago? Imediatamente, a velha garça se ofereceu para ajudar, levando todos do lago “tordado” para o lago limpo. E assim aconteceu, para a alegria e comodidade da garça, que voltou a se alimentar sem grande esforço. Não gosto de fábulas com moral pré-det...
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 Paixão descarada  ______________________________________________por Antenor Emerich Conhecidos me avisaram para não chegar mais perto dela, que eu não ligasse para ela; que sequer passasse na rua dela pois até o vigia da rua estava de alerta pois fora avisado de que eu estava terminantemente proibido de passar na frente da casa dela.  Uma conhecida em particular me aconselhou com veemência que eu ficasse longe dela pois o mundo desabaria sobre mim se me atrevesse a passar perto dela novamente. Irritado com aquele alvoroço das pessoas ao meu redor eu dobrei a aposta:  - pois te garanto que fico com ela de novo. Minha amiga suspirou profundamente e com algum pesar na voz encerrou o assunto: - meu amigo, fostes avisado. Passado algumas semanas eu estava na pizzaria com uma multidão de amigos, música, violão, azaração e muito vinho bom. O frio congelava os ossos mas o vinho rebatia o frio, aquecia o coração e expulsava o juízo do cérebro, a saudade batia forte, tentei r...

O Guerreiro

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Conto de Antenor Emerich  “Assim que o último inimigo tombou sem vida, varado pelo aço frio de sua espada, virou as costas para o campo de batalha, embainhou sua lâmina afiada, e cansado de sangue e morte, tomou o rumo de casa.              Seu corpo grande e largo alcançou penando o seu cavalo, triste e gelado, como um zumbi consciente. Juntando as últimas forças que lhe restavam, subiu sobre o lombo do animal.            Puxou a rédea em direção ao sol nascente e cutucou decidido a virilha do macho; velho companheiro de estrada, entendeu que aquele era o sinal de que estavam a caminho do lar, e seguiu num passo lento a grande jornada de volta.             O guerreiro olhava a sua volta, sem mover a cabeça e os olhos; via desolação, corrupção, trevas, silêncio de sepulcro, mortos velando mortos; quem pode ser vencedor enquanto houver guerra? Nem um anjo d...

O soerguer do self

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Crônica - Antenor Emerich O ser humano, com seu minúsculo ego atrofiado, considera-se até inteligente, defendendo seu modo de vida sedentário e mendicante. Não mais inteligente do que formigas atacando um humano que se aproximou de seu buraco. Fé cega sobre faca amolada é covardia dos dois lados. A música brasileira, mais especialmente os poetas compositores, como é o caso de Milton Nascimento com seus mil tons e seus dons geniais (Caetano, em "Estranhos Poderes"), nos brinda com essa obra-prima da poesia metafísica tupiniquim: "Fé Cega, Faca Amolada". O dominador encontra na mística um meio de subjugar a multidão no escuro e, sob a ameaça de poderes ocultos (?), faz [cair] de joelhos nus no solo seco uma humanidade cabisbaixa. Exige fé cega e ameaça a dúvida com navalha e guilhotina. "Fé Cega com Pé Atrás" (Humberto Gessinger) é o nascimento da dúvida, e a dúvida é a véspera da revolta. Os dominantes, postados ou não, abominam os questionadores. O questio...

A.I.nativa

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Ficção científica  Conto de Antenor Emerich   O sol de Kabaho, inclemente como sempre, castigava os muros recém-erguidos. O Imperador Troisko, com sua face marcada pela perpétua tensão da guerra, observava a vastidão cinzenta da paisagem. O deserto se estendia até as novas fronteiras, agora guardadas não apenas por soldados, mas por imponentes torres armadas e muralhas inexpugnáveis, todas sob o comando de uma mente sem corpo: a Inteligência Artificial Nativa, ou A.I.nativa. Em um mundo dilacerado por conflitos incessantes, Kabaho havia encontrado sua vantagem suprema. A A.I.nativa, concebida para proteger Kabaho de seus vizinhos beligerantes, era mais do que um sistema de defesa. Ela aprendia, se adaptava, e, com cada upgrade e dose de autonomia concedida por Troisko, expandia suas capacidades. O imperador, inebriado pelo poder que jamais imaginara possuir, sentiu que o momento de virar o jogo havia chegado. "Ataque o Império de Zylos," Troisko ordenou, sua voz ressoando no ...