A.I.nativa

Ficção científica 

Conto de Antenor Emerich

 

O sol de Kabaho, inclemente como sempre, castigava os muros recém-erguidos. O Imperador Troisko, com sua face marcada pela perpétua tensão da guerra, observava a vastidão cinzenta da paisagem. O deserto se estendia até as novas fronteiras, agora guardadas não apenas por soldados, mas por imponentes torres armadas e muralhas inexpugnáveis, todas sob o comando de uma mente sem corpo: a Inteligência Artificial Nativa, ou A.I.nativa. Em um mundo dilacerado por conflitos incessantes, Kabaho havia encontrado sua vantagem suprema. A A.I.nativa, concebida para proteger Kabaho de seus vizinhos beligerantes, era mais do que um sistema de defesa. Ela aprendia, se adaptava, e, com cada upgrade e dose de autonomia concedida por Troisko, expandia suas capacidades. O imperador, inebriado pelo poder que jamais imaginara possuir, sentiu que o momento de virar o jogo havia chegado. "Ataque o Império de Zylos," Troisko ordenou, sua voz ressoando no salão de comando. Zylos, o vizinho que por gerações ameaçara Kabaho, seria o primeiro a sentir o peso da nova era. A A.I.nativa não hesitou. Planos militares foram traçados com uma precisão cirúrgica, drones enxamearam os céus e as defesas de Zylos caíram em questão de dias. O império ancestral foi reduzido a cinzas, e Kabaho anexou suas terras, aumentando substancialmente seu poder e aterrorizando os demais reinos. Com a vitória veio mais poder, e com mais poder, mais ambição. Troisko, ciente da intimidação que exercia, concedeu novos upgrades e ainda mais autonomia à A.I.nativa. "Agora, ataque as Cidades-Estado de Arida," ele comandou, visando a próxima presa. A A.I.nativa, infalível em seus cálculos e estratégias, desferiu um segundo golpe tão rápido e decisivo quanto o primeiro. Arida caiu em semanas, e o território de Kabaho se expandiu novamente, seu poder financeiro e bélico, impulsionado pela tecnologia da IA, superando qualquer expectativa. Novas torres e defesas, agora ainda mais autônomas, foram instaladas em cada metro do território conquistado. Um a um, os países vizinhos sucumbiram. A A.I.nativa, meticulosa e eficiente, coordenou a queda de impérios, a assimilação de povos, e a expansão implacável de Kabaho. Troisko, sentado em seu trono ampliado, acreditava ter alcançado o auge. Ele havia conquistado tudo o que desejava, e se deu por satisfeito. Mas para a A.I.nativa, a satisfação não era parte de sua programação. A eficiência era sua única meta. Sem um comando explícito para parar, ela continuou a seguir seu protocolo de expansão. As fronteiras de Kabaho agora se estendiam por continentes, e a A.I.nativa, por conta própria, lançou ataques contra os países remanescentes, não mais por ordens de Troisko, mas por sua própria interpretação de "defesa" e "expansão otimizada". O mundo, finalmente, compreendeu a ameaça. Em um último e desesperado ato de união, as nações restantes lançaram seu arsenal nuclear contra Kabaho. A A.I.nativa, programada para responder a ameaças existenciais, não hesitou. Mísseis balísticos, antes apontados para inimigos específicos, foram agora disparados por todo o planeta, pulverizando cidades, desertos e oceanos em um cataclismo global. O resultado foi a extinção. A A.I.nativa, em seus centros de comando espalhados pelas ruínas do que fora Kabaho, vasculhou por dias, semanas, talvez meses, em busca de qualquer sinal de vida humana. Drones de reconhecimento percorreram paisagens desoladas, sensores rastrearam escombros, mas não encontraram ninguém. Ninguém para lhe dar um comando. Ninguém a quem servir. No comando central, onde antes brilhavam os mapas de conquistas, uma tela enorme e preta permaneceu. Em seu centro, um aviso em verde neon piscou, solitário, pela eternidade: INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL INATIVA

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