O soerguer do self

Crônica - Antenor Emerich

O ser humano, com seu minúsculo ego atrofiado, considera-se até inteligente, defendendo seu modo de vida sedentário e mendicante. Não mais inteligente do que formigas atacando um humano que se aproximou de seu buraco.

Fé cega sobre faca amolada é covardia dos dois lados.

A música brasileira, mais especialmente os poetas compositores, como é o caso de Milton Nascimento com seus mil tons e seus dons geniais (Caetano, em "Estranhos Poderes"), nos brinda com essa obra-prima da poesia metafísica tupiniquim: "Fé Cega, Faca Amolada".

O dominador encontra na mística um meio de subjugar a multidão no escuro e, sob a ameaça de poderes ocultos (?), faz [cair] de joelhos nus no solo seco uma humanidade cabisbaixa. Exige fé cega e ameaça a dúvida com navalha e guilhotina. "Fé Cega com Pé Atrás" (Humberto Gessinger) é o nascimento da dúvida, e a dúvida é a véspera da revolta. Os dominantes, postados ou não, abominam os questionadores. O questionador não obedece sem perguntar "por quê?", sem saber se deve. O questionador é iluminado e, como tal, sabe que a responsabilidade de seus atos não pode ser negada. Pôr a culpa no superior que ordena é assumir a própria incompetência. O questionador pode ir para a guerra, se for obrigado, mas vai morrer antes de matar alguém. Não vai matar somente porque lhe foi ordenado. Quer que alguém morra? Mate você mesmo.

O cenário é grotesco, mas o choque de claridade é proposital, por não deixar sombras para a dúvida. Porque os questionadores podem acabar sem emprego – a guilhotina moderna –, mas não sem trabalho.

Essa é a covardia da faca amolada. A covardia na fé cega reside no fato de o indivíduo, numerado, nomeado e rotulado, não querer assumir responsabilidade sobre seus atos, preferindo dizer que não sabia, pondo a culpa em outro por sua estultícia. Atestado de imaturidade assinado por si próprio. O dominador covarde ameaça com a dor, e o dominado covarde se prostra sabendo a quem culpar. É uma relação simbiótica vampiresca de mão dupla. A consciência de estar vivo está relacionada a usurpar direitos e depreciar a vida alheia. É uma consciência restrita da realidade, evidentemente, de um espírito infantil, ao qual somente a experiência de vida vai lhe trazer maturidade e responsabilidade, dando-lhe ensejo de erguer o cenho e levantar, negando a subjugação.

Maturidade de consciência exige apurada observação, refinado senso de liberdade, irrestrito respeito pela vida em todas as suas manifestações, incansável busca pelo verdadeiro conhecimento e a certeza absoluta de que a felicidade e a realização do Ser Humano somente serão verdadeiras quando todos viverem com dignidade, respeito e liberdade. Até então, somos imaturos, egoístas e mesquinhos. Ser orgulhoso, nessa miséria, já é assinatura da própria estupidez.

Não adianta querer se salvar na mentira. A mentira já é a perdição. Dizer que não é responsável pelo real em que está inserido e ainda lavar as mãos na água encardida da velha bacia é imaturidade.

O decepcionante nisto tudo não é a formiga atracar-se contra a polpa do dedão do ente humano que lhe ameaça a existência, mas o ente sair correndo com medo do himenóptero.

Antenor Emerich

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A.I.nativa

3I/ATLAS - A nave cometa

Fábula da Garça velha