O Guerreiro
Conto de Antenor Emerich
“Assim que o último inimigo tombou sem vida, varado pelo aço frio de sua espada, virou as costas para o campo de batalha, embainhou sua lâmina afiada, e cansado de sangue e morte, tomou o rumo de casa. Seu corpo grande e largo alcançou penando o seu cavalo, triste e gelado, como um zumbi consciente. Juntando as últimas forças que lhe restavam, subiu sobre o lombo do animal. Puxou a rédea em direção ao sol nascente e cutucou decidido a virilha do macho; velho companheiro de estrada, entendeu que aquele era o sinal de que estavam a caminho do lar, e seguiu num passo lento a grande jornada de volta.
O guerreiro olhava a sua volta, sem mover a cabeça e os olhos; via desolação, corrupção, trevas, silêncio de sepulcro, mortos velando mortos; quem pode ser vencedor enquanto houver guerra? Nem um anjo deveria estar ali; e demônios sedentos de ódio e sangue, deviam estar saindo em procissão à procura de outros campos de batalha. Não haverá dignidade enquanto homens matarem homens! O puro sangue parou suavemente soltando um baixo relincho, para chamar a atenção de seu amo. Dois corpos sem vida estirados no meio da estrada. Puxou sutilmente a rédea para a esquerda e foi atendido imediatamente; o sangue dos dois homens mortos escorria para a beira da estrada, instintivamente seus olhos acompanharam o filete escarlate, que, para sua surpresa e espanto, formava uma poça em torno de uma rosa vermelha. Que ironia e lição da vida, em um lugar de extermínio, destruição e morte, a delicada flor resistira ingenuamente. E, em meio ao fedor da putrefação, o perfume fugas da rainha do enternecimento alcançou com suavidade as narinas do matador, que, por instinto ou impulso, aspirou profundamente. O doce aroma preencheu os seus pulmões e espalhou-se pelo seu corpo, acariciou seu coração amargurado, revitalizou sua mente quase tomada pelo desânimo. Acelerou sua pulsação, e ele lembrou então do porque tinha tanta pressa de voltar pra casa.
Cutucou energicamente com o salto da bota, e o velho amigo entendeu que seu mestre tinha pressa, pôs-se num galope veloz, como se quisesse ultrapassar a própria sombra produzida pelo ocaso a suas costas. Tinha um amor que o esperara demais, enquanto ele a esquecia e perdia a fé ceifando vidas em meses de guerra em prol da estupidez humana.”

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