Por Amor - Antenor Emerich
O terapeuta esperava uma resposta.
Ela olhava para o encontro entre o chão e a parede. Uma esquina comprida, pensava.
— O que você esconde? — quis saber o homem.
Ela parecia saber, mas não sabia onde estava a resposta.
Olhou a hora. Não sabia quanto tempo havia se passado desde que entrara naquela sala, mas ainda era cedo. Seu marido estava trabalhando. Nem desconfiaria de que ela saíra para consultar-se com um terapeuta.
Ela já não se importava como antes. Nem mesmo perguntava se estava tudo bem. Cinco anos de casada — e já parecia uma eternidade.
Quando se conheceram, ela se apaixonara pelo homem incrivelmente cuidadoso que ele era. Atento a todos os detalhes de sua vida. Descobria os menores gestos, fazia de tudo para lhe agradar. Ele preenchia todos os espaços.
Sempre sabia de tudo.
Amoroso, atencioso, nada lhe escapava.
Ela se sentia mais que amada. Sentia-se protegida.
E ele queria o mesmo que ela sempre quis: casar.
Foi um lindo casamento. Convidados, cerimônia, recepção. Muita luz, muito brilho. Lua de mel e tudo.
Seu rosto franziu. As lembranças agora vinham com força.
O terapeuta percebeu.
— A vontade de ser feliz é uma armadilha — disse ela, de repente. — Já não somos felizes desde o começo. Apenas acreditamos ter encontrado o que nos fará felizes. Nunca pensamos em partilhar felicidade. É o nosso egoísmo em ação… nessa batalha constante de nos cegar.
Fez uma pausa.
— Tudo evolui. O bem e o mal. Até a guerra evoluiu… de arco e flecha para mísseis teleguiados que nunca erram o alvo.
O sonho de casamento tornara-se o pesadelo de sua vida.
O namorado atencioso transformara-se em um marido possessivo e neurótico. Seus cuidados tornaram-se vigilância constante. Marcação cerrada.
Tudo o que ele fazia não era por amor a ela, mas para que ele fosse o único foco de sua atenção.
O ciúme o transformara em um lobisomem.
Ele farejava.
Ele rondava.
Ela não podia olhar para lado nenhum. Não podia falar com ninguém. Restou-lhe ficar em casa. Ver TV. Arrumar a casa. Dormir. Comer. Repetir.
A vida virou um círculo sem portas.
Com o tempo, começou a esconder suas fotos para que ele não as visse. Engordava cada vez mais.
Mas, quanto mais engordava, menos ele a vigiava.
Aquilo lhe pareceu um bom sinal.
Em cinco anos de casamento, não havia mais nada nela que despertasse ciúmes. Agora só usava vestidos largos. Seu corpo cresceu. Seu rosto arredondou.
— Eu pareço uma bola… — pensou. — E ele detesta esportes.
Riu.
— Não me toca mais. Nem me vigia mais. Ele queria me esconder do mundo… e, quando consegui fazer com que ninguém mais me olhasse, ele simplesmente deixou de se importar.
Levantou os olhos para o terapeuta.
— Então eu posso ficar com o meu corpo como está nesta foto?
— Sim, sem dúvida — respondeu ele. — Mas, como eu disse, precisamos descobrir por que você engordou tanto em tão pouco tempo. Ao que tudo indica, você está escondendo algo. Precisamos descobrir o quê.
Ela levantou-se.
— Bem… eu já vou.
Pegou a bolsa.
— Sabe… eu não estou precisando de um terapeuta.
Fez uma pequena pausa, quase elegante.
— No momento, eu estou precisando de um advogado.
Sorriu.
— Muito obrigada.
Continua fora da página…
(Antenor Emerich)

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